A prevenção de incêndios no Brasil

Para diminuir o número de mortes e feridos, precisamos de gigantesco esforço

Artigo publicado na Folha de São Paulo em 21.07.2022
Sylvio do Carmo –
Presidente da Abichama (Associação Brasileira da Indústria de Retardantes de Chama)

Os recentes incêndios de grandes proporções, em galpões e prédios comerciais de São Paulo, reacendem a discussão sobre a necessidade de colocar em prática normas relativas à prevenção passiva. Embora sem vítimas fatais, os últimos casos poderiam marcar verdadeiras tragédias caso tivessem iniciado dentro do horário comercial.

Hoje, segurança é um direito adquirido do consumidor. Oferecer produtos mais seguros não é apenas uma opção da indústria, é uma obrigação. Materiais tradicionais, como madeira, metal e revestimentos para a fabricação de móveis, carros e aparelhos eletrônicos foram substituídos por plásticos, compósitos, espumas e recheios à base de fibras naturais ou sintéticas. No entanto, raramente avaliamos sobre suas condições de inflamabilidade.

Na realidade, o vasto conjunto de novos equipamentos elétricos e eletrônicos deu origem a uma série de problemas relacionados à combustão. Como consequência, os incêndios são mais violentos, o que diminui o tempo para evacuação.

Dados da NFPA (National Fire Protection Association), associação que trata dos temas da segurança contra incêndios nos Estados Unidos, referentes a 2020 reportam cerca de 1,4 milhão de incêndios no território norte-americano. Esse número equivale a cerca de 1 incêndio a cada 23 segundos, gerando aproximadamente 3.500 mortes e 15.200 feridos.

A associação também estima uma perda monetária da ordem de US$ 21,9 bilhões em decorrência desses acidentes.

Já na Europa, a EFSA (European Fire Safety Alliance) registrou 1,8 milhão de incêndios em 2021, média de 5.000 casos por dia, com aproximadamente 5.000 mortes e 70 mil feridos. As perdas monetárias com os incêndios foram calculadas em aproximadamente €126 bilhões, correspondendo a 1% do PIB europeu.

No Brasil, temos dificuldades em calcular as perdas causadas por incêndios, pois não existem dados consolidados. Estima-se que somente 11% dos nossos municípios tenham bases dos Corpos de Bombeiros, o que, aliado à falta de dados estatísticos e ao ainda deficiente arcabouço de normas técnicas e regulamentações, dificulta um melhor entendimento das ações necessárias para mitigar os riscos.

Dados não oficiais indicam a ocorrência de cerca de 300 mil incêndios por ano no país, com, aproximadamente, mil mortes. Não sabemos, contudo, se esses números correspondem à realidade.

Para diminuir o número de mortes e feridos, além de proteger nosso meio ambiente e reduzir as perdas patrimoniais e culturais, precisamos de um gigantesco esforço dos órgãos governamentais, da indústria e da comunidade civil em geral.

E apenas com um verdadeiro trabalho conjunto será possível ter uma base de dados real e objetiva sobre os incêndios no Brasil.

Link original – Incêndios recentes em São Paulo reacendem debate sobre prevenção – 20/07/2022 – Opinião – Folha (uol.com.br)